Escrita criativa, Estórias

Celeste Seabra e o homem do coelho-caramelo

Celeste Seabra celebrava o seu vigésimo quinto aniversário dali a dois dias. Os últimos cinco dos oito quilos ganhos durante o último ano de mestrado não haviam recebido convite, mas ainda assim juntar-se-iam à festa, cuidadosamente enlatados dentro de uma cinta elástica, mas pouco, comprada no dia anterior.

Apesar de tudo, Celeste vestia bem as novas curvas, que abraçavam de uma forma historicamente feminina as suas coxas e traseiro, mas que tinham feito o favor de deixar – em grande parte – a sua cintura em paz.

Experimentando o vestido vermelho reservado para o dia do aniversário, contemplou a sua figura ao espelho, tentando decidir se usaria a cascata de caracóis cor de avelã – a condizer com os olhos – em volta dos ombros ou se os reuniria num puxo elaborado no topo da cabeça.

Deixou-se ainda permanecer naquele momento narcisista durante algum tempo, até que recebeu uma mensagem. O toque fê-la voltar à realidade e a aperceber-se de que o dia já ia quase a metade.
Despiu o vestido vermelho, voltou a enfiar os jeans de sempre e uma das t-shirts que se amontoavam no cadeirão do seu quarto e saiu de casa rumo à paragem do 747.
Teve sorte em chegar naquele momento; mais um minuto e teria que aguardar mais quinze para apanhar o próximo autocarro. Respirou de alívio e sentou-se num lugar individual, à janela, no sentido contrário ao da marcha do veículo.

Pronta para relaxar, Celeste deu por si a fixar o olhar num homem à sua frente, na fila da esquerda em relação à sua.
Tinha um olho fechado, invulgarmente inchado, de tamanho desproporcional ao outro olho e no seu colo…

– Gina, filha, passa lá o meu cartão! – gritou uma mulher mais velha que entrou na paragem seguinte.

A mulher sentou-se ao lado do olho inchado, obrigando-o a levantar-se para lhe ceder o lugar à janela.
Agora que a mulher se sentara, conseguia finalmente ver que, no colo do homem, ia muito sossegado um coelho cor de caramelo bastante rechonchudo cuja cabeça estava adornada por um pequeno chapéu de palha com uma flor cor-de-rosa de cada lado. Abraçando o seu corpo rechonchudo estava uma trela também cor-de-rosa.

– Toma, mãe. – a filha da companheira de viagem do homem do olho inchado e do seu coelho cor de caramelo interrompeu novamente o seu campo de visão.

– Obrigada. Não queres sentar, filha?

– Não, mãe, vou bem aqui. Olhe ali a sua amiga Vera! – apontara a filha Gina através da janela do autocarro.

Celeste, que entretanto pudera voltar a admirar a cena caricata, perguntou-se se seria apenas ela a reparar no senhor com o coelho, visto que mais ninguém parecia reparar.

Ficou à espera que alguém metesse conversa com o homem. Queria desesperadamente saber de onde tinha vindo, o que se passara e que lhe deixara o olho naquele estado, como se chamava o coelho amoroso cor de caramelo e onde lhe tinha arranjado aquele adereço tão querido que lhe colocara na cabeça. Queria saber se iam a algum sítio especial, se aquele dia era especial na vida dele ou do coelho que justificasse aquele aparato.

Mas se alguém lhe perguntou alguma coisa nunca chegou a saber.
Chegada à paragem perto dos correios, saiu para o ar ameno dessa tarde quase primaveril.

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